O BRILHO DA LUA

by Nuno Pontes
(Osasco, São Paulo, Brasil)

5 ― O Brilho Da Lua

O trovejar dos tambores e o gemido estridente das guitarras elétricas jorraram das enormes caixas acústicas, quebrando o silêncio da noite que se iniciava e alterando a rotina da selva, para surpresa dos bichos que moravam por ali. Noturnos, alguns, devem ter se assustado e instintivamente voltado para suas tocas. Mas nós ― animais desabituados a tais temores ― saímos das nossas e fomos atender ao sonoro convite que, mais que instintivamente, sabíamos significar o chamado para junto das fêmeas da nossa espécie.
Garbosos, vaidosamente enfeitados com as nossas camisas mais vistosas, chegamos ao local do evento e pudemos ver a razão do barulho infernal que se podia ouvir ao longe e nada tinha a ver com os instrumentos da banda. Os meus conhecimentos sobre psicologia racional são praticamente nulos para tal, mas alguém iniciado nessa ciência ― talvez você, leitor ― compreenda melhor do que eu, ou qualquer dos meus companheiros, incultos peões de trecho, o admirável fenômeno por nós presenciado.
Encostadas nas paredes, muitas, e sentadas nas muretas laterais do improvisado salão de baile, outras muitas mulheres ― bem mais de cem ― caladas, olhavam para aproximadamente duzentos homens que pulavam e rodopiavam, numa dança feroz e assustadora, pouco se importando com o ritmo internacional da moda que cinco cabeludos se esforçavam para arremedar. Elas, que, a convite da Mineração, viajaram mais de doze horas, acochadas em pequenos barquinhos, só para dançar com eles, nada tinham para fazer, além de olhar homens dançando uns com os outros ou sozinhos. Era tal a fúria com que aqueles cavalheiros agitavam o corpo, aos chutes e pontapés no ar, que, se algum casal mais afoito aventurasse entrar no meio deles, fatalmente seria derrubado e pisoteado. Não seria preciso imaginação prodigiosa para jurar que o cozinheiro havia trocado o sal do jantar pelo pó colombiano.
Algumas mulheres, acompanhadas, olhavam frustradas para o salão. Queriam dançar com seus namorados, mas não se arriscavam. Elas, pelo menos, não perderiam totalmente a viagem, tinham toda a selva amazônica à sua disposição para se esconderem dos olhares indiscretos ― desde que não se importassem com os macacos. As outras, porém, pelo que até ali se vislumbrava, não precisariam de muito trabalho para se defender do assédio dos mais de dois mil tarados, loucos para estuprar donzelas inocentes. E se o Ataualpa, um peão peruano, estivesse certo quando garantia que muitas garotas viriam àquela festa com intenção de virar mulher, com certeza se dependesse daqueles bailarinos teriam de aguardar outra oportunidade ― a não ser que aquela dança fizesse parte de algum ritual aborígine e fosse a dança local da fertilidade... Masculina!
Já desanimado, sentindo-me frustrado no intento de mostrar o meu talento de dançarino de gafieiras mil, para os selvagens da sertania paraense, olhei para a minha direita e surpreendi uma moreninha de carinha redonda e olhos amendoados, sorrateiramente, a olhar na minha direção. Fui cumprir o meu papel.
― Oi, você quer dançar?
― Não dá, está muita bagunça.
― Eu não estou falando, aqui!
― Adonde, então?
― Na beira do rio. Na horizontal...
― Como é!
― Na beira do rio, deitados.
Abaixou o rosto.
― Desculpa. Eu estava só brincando.
Tímida e confusa encarou-me por um instante. Depois abaixou a cabeça outra vez, até que, finalmente, encarou-me sorrindo e tentando mostrar uma naturalidade que estava longe de ser verdadeira. E nem de longe ela podia imaginar que a minha agressividade tinha sido proposital: Se ela não estivesse interessada em algo mais do que dançar, já teria me mandado para o inferno ou, no mínimo, me virado as costas e ido embora. Eu não estava interessado em iniciar nenhum papo-furado. Principalmente porque não entendia nada de jacarés, sucuris, e muito menos sabia dançar carimbó ― o ritmo do Pará e, portanto, da maioria dos homens e de todas as mulheres ali presentes, e que, inevitavelmente, aqueles cabeludos teriam de dar prioridade tão logo os exibicionistas perdessem o fôlego e dessem lugar às damas e cavalheiros.
Usei o excesso de barulho e de poeira no ar para convidá-la a sair dali, passear um pouco, e ela concordou com um aceno de cabeça.
Enquanto caminhávamos em direção ao rio, ela, curiosa, admirava o tamanho dos barracões dormitório. Perguntei se queria conhecer um deles por dentro e novamente balançou a cabeça, em sinal afirmativo. Se ela não queria falar, tudo bem, eu também não estava disposto a discursos.
Empurrei a porta do quarto onde dormia. Não havia ninguém lá dentro. Ela entrou e olhou toda a bagunça possível de imaginar em um alojamento de peões de montagem. Havia calças, cuecas, meias e camisa, sujas e limpas espalhadas por todos os cantos e pendurados em todos os paus dos beliches e pregos das paredes. Depois, sorrindo e abrindo finalmente a boca, perguntou qual era a minha cama. Apontei um dos beliches, o único que tinha uma rede armada por cima dele, e ela comentou, admirada:
― Paulista dormindo em rede...!
― Não, não durmo nela. Comprei-a para ter onde por minhas coisas e para usar no popopô quando for a Oriximiná ― respondi, enquanto começava a passar-lhe a ponta dos dedos pelo contorno dos lábios, entreabertos e sem pintura.
Mais uma vez abaixou a cabeça. Pareceu-me que estava com medo de mim, mas não queria fugir. No princípio pensei que fosse timidez, mas, depois, imaginando ter descoberto o verdadeiro motivo, afastei-me dela.
Excluindo casamentos, noivados e outras alianças, ainda restavam mais de duzentas mulheres naquela festa. Noventa por cento eram prostitutas, dos “bregas” ― davam por dinheiro. As outras eram mulheres de família ― davam por prazer. Lembrei do comentário do Ataualpa: “Moça que vier nesse baile, está querendo virar mulher.” Não comigo! Já naquela época, a gente daquela região não se importava muito com coisas de virgindade. Mas eu não era dali, e ligava. Nos grandes centros da civilização terceiro-mundista o movimento pela libertação sexual da mulher apenas engatinhava, e não havia me convencido porque conhecia muita gente que andava a fazer muita confusão entre liberação sexual e libertinagem.
Puxei-a para fora do barracão e perguntei, surpreendendo-a:
― Você quer voltar para o baile?
― Eu não! E tu quer?
Queria. Estava louco para voltar, mandar aquela menina às favas e, antes que fosse tarde, “arrastar” uma mulher de verdade para o meio dos macacos. Mas como dizer isso a ela!
Estendi a mão. Ela segurou-a e saímos dali. Quando percebeu que não estávamos voltando para o baile e perguntou para onde a estava levando, respondi que, para a beira do rio. Apareceu então um sorriso misterioso no rosto dela, que me surpreendeu e fez-me também sorrir ao dizer:
― Não se preocupe. Não vamos “dançar”!
Ainda tentava decifrar aquele sorriso, quando passamos pelo refeitório, descemos uma escada cavada no barranco até o nível do rio, e ouvíamos uma bomba que zumbia forte enquanto empurrava água para uma caixa a cem metros de distância.
Havia ali uma grande balsa construída sobre tambores de ferro, de duzentos litros, e tábuas de andaimes ― ancoradouro desativado do inicio da obra e, então, plataforma de pesca. Fomos sentar lá na ponta, uns trinta metros rio adentro.
Estávamos completamente sós. As luzes dos alojamentos e da pequena vila onde moravam alguns funcionários da administração ― embrião da atual cidade Porto Trombetas ― não se viam dali, percebia-se apenas um clarão no ar. O navio que descarregava chapas de aço e trilhos para a ferrovia, e os barcos menores estavam muito longe, as luzes deles também não incomodavam. Só tínhamos um céuzão limpinho e apinhado de estrelas, a lua e a brisa que, provocando as águas paradas e silenciosas da margem, criava pequenas e irrequietas maretas onde, ao som de acordes distantes, estrelas cintilavam num bailete maravilhoso, criando por invisível iara para seduzir o alienígena que ousara invadir a reserva impoluta do seu reino e marcá-lo para sempre no mais fundo de suas lembranças... Encolheu-se toda e encostou a cabeça no meu ombro... Os cabelos tinham um estranho e suave perfume... A lua brilhou nos olhos negros e expressivos... Os primeiros botões da blusa se abriram e o zumbido da bomba de água silenciou.







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May 24, 2012
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ESCLARECIMENTOS
by: Anonymous

O local destes acontecimentos é Porto Trombetas, no Estado do Pará, Brasil, e levam o leitor à época da fundação daquela cidade (onde Nuno Pontes foi um dos pioneiros) e à implantação da Mineração Rio do Norte, empresa de extração de bauxita, onde Nuno, então contratado da empreiteira CENSA, exercendo a função de ajustador mecânico, trabalhou na montagem de equipamentos. O baile, o alojamento, a geografia e tudo mais aqui descrito refletem realidade.

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